Melões

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

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Hoje, estava eu voltando da casa de minha noiva quando, distraídamente eu vi um melão jogado na rua. Estava inteirinho, bonito, embora um pouco machucado. Me segurei ante à tentação de levar aquele belo exemplar para casa. Alguns passos mais tarde eu me interpelei com a seguinte questão: "por quais caminhos tortuosos aquele melão passou até estar jogado naquela rua? E qual será seu futuro?"
Comecei a pensar sobre o assunto, eu nada sei sobre o cultivo de melão, aliás, sobre o cultivo de quase nada - a não ser aqueles feijõezinhos que quando criança eu colocava no algodão molhado e depois de alguns dias brotava e depois de mais alguns dias sumia sem deixar rastro.
Imaginei aquele melão quando ele era apenas um brotinho de sei lá o que, na terra, junto com seus irmãozinhos. Eram uma família feliz, apesar de algumas desavenças (sempre tinha aquele que queria ficar por cima de tudo). Eles sempre faziam tudo juntos, tomavam sol, faziam fotossíntese, olhavam a paisagem enfim, a vida deles era maravilhosa. Havia um ser humano que provia todo o sustento que eles necessitavam, água, adubo, e podavam suas folhas quando necessário.
Estavam ficando cada vez maiores, mais redondos e mais amarelados, cada vez mais adocicados e bonitos, e sentiam que em seu interior cresciam várias sementinhas, que iria perpetuar a espécie. Sentia no seu mais íntimo que devia proteger a integridade dessas vidas que cresciam dentro dele. Mais que isso, todas os irmãos melões dele, todos carregavam essas vidas, estavam planejando uma festa, todos eclodindo aquelas sementes ao mesmo tempo, seria uma explosão de vida, um milagre.
Mas, alegria de melão dura pouco.
Naquele dia o sol estava excepcionalmente belo, nenhuma nuvem ameaçava aquele explendor. Estavam todos os melões felizes pois faltavam poucos dias para a grande festa da eclosão. Entretanto, naquele mesmo dia mais à tarde, aquele mesmo ser humano que alimentava os melões os traiu da maneira mais sórdida e violenta. Ele cortou o caule (que sustentava os melões e levava os nutrientes que as sementinhas tanto necessitavam), cortou um por um. E vinha outro atras desse recolhendo os melões numa caixa. Ficaram todos apavorados, pois sem os caules como aquelas sementinhas todas iriam crescer e formar outros lindos melões?
Alguns dias se passaram até que eles entraram num galpão, onde foram colocados numa esteira e começaram a ser lavados e escovados. Alguns, os mais doentes e fracos, eram descartados como lixo. Em meio aos gritos surdos dos excluídos, eles eram levados rumo ao desconhecido. Até que no final da esteira ele receberam um selinho que foi colado por uma humana que mais parecia uma das máquinas que os lavaram anteriormente. Logo após foram acomodados numa caixa mais confortável que aquela em que tinham sido colocados dias antes. Percorreram um longo caminho do qual só se podia ver os humanos andando de um lado para o outro. Quando finalmente pararam, eles foram levados para um mostruário feito de madeira, que se localizava numa rua.
Era madrugada quando a tortura começou. Um humano com jeito de sono pegou um irmão do nosso herói que estava localizado ao seu lado direito e começou a mutilá-lo em ao meio, deixando à mostra suas pequenas, frágeis e delicadas sementinhas, alheio aos berros de dor e desespero o humano ainda (como se já não bastasse) começou a fazer pequenos triângulos nas bordas de seu irmão. Logo após colocou as metades com as bordas triângulares, ainda soltando aquele caldo adocicado, que nosso melão nunca havia visto, formando, assim, um circo de horrores.
Alguns minutos mais tarde notou que além dos gritos agonizantes de seu irmão, haviam outro mais, olhou um pouco para o lado direito, e por sobre um sulco da metade do seu irmão viu que haviam outras espécies parentas suas lá, haviam melancias cortadas em formato de cestas com maçãs cortadas ao meio dentro. Todos muito assustados e se perguntando o que viria a seguir.
Mais tarde, naquele mesmo dia, começaram a se juntar mais e mais humanos ao redor daquela barraca, todos querendo apalpar e escolher qual o mais bonito, quando faziam sua escolha o humano que mutilou seu irmão e as outras frutas colocava os escolhido dentro de um recipiente plástico e em troca o outro humano lhe dava um pedaço de papel, que absurdo: pensou o melão, trocar uma vida agonizante por mísero pedaço de papel.
Percebeu que em frente ao mostruário em que se encontrava, havia um outro estabelecimento, diferentemente do seu, que era de madeira, aquele era de metal, e haviam mais humanos naquele local. Os que estavam dentro, se vestiam de branco e tinham um pequeno chapéu da mesma cor e os que se encontrava ao redor comiam alguma coisa que não conseguiu definir o que eram. Eles eram devorados com um apetite selvagem, seus gemidos eram desoladores, pareciam de alguém que já tinha passado por todas as provações que um ser-vivo pode suportar. Notou que dentro daquela montagem de metal (que mais tarde viria a descobrir que se chamava "barraca" ou "banca") havia fogo e algo sobre ele e, que de dentro, vinham gritos apavorantes, de quem está ardendo em brasa. Ficou imaginando o que se passava dentro daquele recipiente.
Enquanto pensava na sorte dos outros, uma humana velha lhe segurou em seus braços e o trocou por mais um pedaço de papel (que absurdo!). No caminho para sua casa, já à noite, a velhinha levava outros perentes do melão, mas o recipiente plástico que o acomodava se rompeu sob seu peso já avantajado e ele caiu na ladeira que dava acesso à casa daquela velha senhora por onde rolou até o seu fim. Durante o trajeto, mais uma vez rumo ao desconhecido, ele ouvia a senhora gritar para que alguém pegasse seu melão, mas seu desejo não foi cumprido. Já cansada de um dia de trabalho a velha senhora deixou o melão para tras e seguiu seu caminho.
Enquanto o melão pensava em todos os seus caminhos tortuosos, passa por ele um outro humano distraídamente e o olha bem no fundo da alma e percebe que ele está compadecido de seu sofrimento e quer fazer algo para acabar com seu sofrimento, talvez levá-lo para casa e dar-lhe cama e abrigo. Mas esse humano (desgraçado!) lhe vira as costas e vai embora.
O que será que acontecerá a esse melão?
Talvez outra pessoa olhe para ele com bons olhos, veja como ele é belo e adocicado, se compadeça de seu sofrimento e o leve para sua casa. Onde ele será cortado ao meio e será servido de sobremesa para crianças famintas depois da janta.
Ou então ele terá azar, resistirá à noite fria, até pela manhã. Quando crianças felizes passarão por ele e o virão como um brinquedo, ou como uma bola e brincarão felizes e sorridentes com seu novo achado. Brincarão até que ele caia no chão, numa queda violenta e se parta em vários pedaços que não terão mais graça para as crianças, que sairão desanimadas de volta para a escola. Ele, então será devorado por algum cachorro faminto, e seus restos serão pisoteados por automóveis e humanos até que não sobre mais nada dele e nem de suas sementinhas.